
Frequentemente me perguntam quantos anos eu tenho.
O que isso importa ?
Tenho a idade que eu quero e sinto.
A idade em que eu posso gritar, sem medo, o que eu penso.
Fazer o que eu desejo, sem medo do fracasso ou do desconhecido.
Eu tenho a experiência dos anos vividos e da força da convicção dos meus
desejos.
Que importa quantos anos eu tenho?
Eu não quero pensar nisso!
Alguns dizem que estou velho e outros, que eu estou no auge.
Mas não é a idade que tenho, ou que as pessoas dizem, mas o que meu
coração sente e meu cérebro dita.
Eu tenho os anos necessários para gritar o que eu penso, para fazer o que
eu quero, para reconhecer erros passados, retificar caminhos e guardar meus
êxitos como tesouros…
Agora as pessoas não tem por que dizer: Você é muito jovem, não faça isso.
Tenho a idade em que se olha as coisas com mais calma, mas com
interesse de continuar crescendo.
Tenho os anos em que os sonhos começam a nos acariciar com os dedos,
e as ilusões se transformam em esperança.
Tenho os anos em que o amor, às vezes é um surto louco, ansioso para
consumir-se
no fogo de uma paixão desejada.
E às vezes um refúgio de paz, como o pôr do sol na praia.
Quantos anos eu tenho? Não preciso marcar isso com um número, pois minhas
realizações, meus triunfos, as lágrimas que derramei pelo caminho ao ver
meus sonhos destruídos valem muito mais do que isso…
Que importa se eu tenho vinte, quarenta ou sessenta?
O que importa é a idade que eu sinto.
Tenho os anos que preciso para viver livre e sem medos, porque carrego a
experiência e a força dos meus desejos…
(José Saramago)