quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O poder da doçura



O viajante caminhava pela estrada, quando observou o pequeno rio que começava tímido por entre as pedras. Foi seguindo-o por muito tempo. Aos poucos, ele foi tomando volume e se tornando um rio maior. O viajante continuou a segui-lo.
Bem mais adiante, o que era um pequeno rio se dividiu em dezenas de cachoeiras, num espetáculo de águas cantantes.
A música das águas atraiu mais o viajante, que se aproximou e foi descendo pelas pedras, ao lado de uma das cachoeiras. Descobriu, finalmente, uma gruta. 
A natureza criara, com paciência caprichosa, formas na gruta. Ele a foi adentrando, admirando sempre mais as pedras gastas pelo tempo.
De repente, descobriu uma placa. Alguém estivera ali antes dele. Com a lanterna, iluminou os versos que nela estavam escritos.
Eram versos do grande escritor Tagore, prêmio Nobel de literatura de 1913:
"Não foi o martelo que deixou perfeitas estas pedras, mas a água, com sua doçura, sua dança, e sua canção.
Onde a dureza só faz destruir, a suavidade consegue esculpir."

(Paulo Coelho)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Coisas limpas e bonitas



Meus queridos: imaginem um mundo de coisas limpas e bonitas, onde a gente não seja obrigado a fugir, fingir ou mentir, onde a gente não tenha medo nem se sinta confuso (não haverá a palavra nem a coisa confusão, porque tudo será nítido e claro), onde as pessoas não se machuquem umas às outras, onde o que a gente é apareça nos olhos, na expressão do rosto, em todos os movimentos — acrescentem a esse mundo os detalhes que vocês quiserem (eu me satisfaço com um rio, macieiras carregadas, alguns plátanos e uma colina — ou coxilha, como se diz aqui no Sul — no horizonte), depois convidem pessoas azuis para se darem as mãos e fazerem uma grande concentração para concretizar esse mundo — e, então, quando ele estiver pronto, novo e reluzente como se tivesse sido envernizado, então nós nos encontraremos lá e eu não precisarei explicar nada, nem contar nenhuma estória escura, porque estórias claras estarão acontecendo à nossa volta e nós estaremos sendo aquilo que somos, sem nenhuma dureza, e o que fomos ficou dependurado em algum armário embutido, junto com sapatos (quem precisará deles para pisar na grama limpa dessa terra?)…

(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Luz da semana



Recuse-se a cair.
Se não puder se recusar a cair, recuse-se a ficar no chão.
Se não puder se recusar a ficar no chão, eleve o coração aos céus e, como um mendigo faminto, peça que o encham, e ele será cheio.
Podem empurrá-lo para baixo.
Podem impedi-lo de se levantar.
Mas ninguém pode impedi-lo de elevar seu coração aos céus - só você.
É no meio da aflição que tantas coisas ficam claras.
Quem diz que nada de bom resultou disso ainda não está escutando.

(Clarissa Pinkola Estés)

sábado, 24 de outubro de 2015

Porque hoje é sábado



Sai do círculo do tempo
e entra no círculo do amor.
Entra na rua das tavernas
e senta entre os beberrões.

Se queres a visão secreta,
fecha teus olhos.
Se desejas um abraço,
abre teu peito.

Se anseias por uma face com vida,
rompe esse rosto de pedra.
Por que hás de pagar o dote da vida
a essa velha bruxa, a terra?

Mil gerações já gozaram
do que agora tens.
Prova a doçura em tua boca
que antes foi flor, abelha e mel.

Vamos, aceita essa pechincha:
dá uma única vida
e leva uma centena.
(Rumi)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Coisas d'alma



 […] Pensei numa festa – sem bebida, sem comida, festa só de olhar.
Para essa festa eu convidaria todos os amigos e amigas que tive e não tenho mais. Só eles, sem nem sequer os entre-amigos mútuos. Pessoas que vivi, pessoas que me viveram. […]
(Clarice Lispector)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Contando um conto



Um homem estava meditando em uma caverna. de repente, um rato entrou e deu uma mordida em sua sandália. 
Aborrecido, ele falou:
_ Por que você está perturbando a minha meditação?
_ Estou com fome. - guinchou o rato.
_ Vai embora, rato louco. - pregou o homem. – Estou procurando a união com Deus. Como se atreve a me perturbar?
_ Como espera tornar-se um com Deus - perguntou o rato - se nem mesmo consegue tornar-se um comigo?