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quarta-feira, 2 de maio de 2018

Coisas d'alma



Nunca temamos os ladrões nem os assassinos. Estes são perigos externos, pequenos perigos.
Temamos a nós mesmos.
Os preconceitos, esses são os ladrões; os vícios, esses são os assassinos. Os grandes perigos estão dentro de nós. Que importa o que ameaça nossa vida ou nossas bolsas?!
Preocupemo-nos apenas com o que ameaça nossa alma.
(Victor Hugo)

sábado, 3 de março de 2018

Porque hoje é sábado



A vida passa,
leve
como a fumaça,
sem que possa
ao menos compreendê-la.
É um perfume sutil de magnólia,
cintilância indecisa de uma estrela,
um zumbido de vespa que esvoaça
em torno de uma flor
ou junto a um fruto.
É como um nome escrito sobre a areia
para viver o espaço de um minuto.
Aceitemo-la com indiferença,
como se olha a fumaça que se evola
ou se aspira o perfume de uma flor;
tal se escreve na areia um nome amado
porque se sente o amor.
Vivamo-la, pois, serenamente,
trazendo sempre a alma contente
e alegre o coração,
na certeza de que ela é transitória
e que sua glória
é como a glória
de uma bolha de sabão.
Não vale sentir tanta amargura
tanta tristeza 
e quanta desventura
a vida possa nos causar.
O que vale na vida indiferente
é o pouco que o acaso nos concede
nesse inclemente
desfiar das horas,
nessa fuga do tempo
que nos mata
lentamente...
imperceptivelmente...
imperceptivelmente...
(Alfredo de Sant'Anna
)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Porque hoje é sábado



Até morrer estarei enamorada
de coisas impossíveis:
tudo que invento, apenas,
e dura menos que eu,
que chega e passa.
Não chorarei minha triste brevidade:
unicamente alheia,
a esperança plantada em tristes dunas,
em vento, em nuvem, n'água.
A pronta decadência,
a fuga súbita
de cada coisa amada.
O amor sozinho vagava.
Sem mais nada além de mim...
numa eternidade inútil.
(Cecília Meireles)

sábado, 20 de janeiro de 2018

Porque hoje é sábado



Simplicidade...
Ser como as rosas, o céu sem fim,
a árvore, o rio... Por que não há de
ser toda gente também assim?
Ser como as rosas: bocas vermelhas
que não disseram nunca a ninguém
que têm perfumes... Mas as abelhas
e os homens sabem o que o que elas têm!
Ser como o espaço, que é azul de longe,
de perto é nada... Mas quem o vê
— árvores, aves, olhos de monge —
busca-o sem mesmo saber porque.
Ser como o rio cheio de graça,
que move o moinho, dá vida ao lar,
fecunda as terras... E, rindo, passa,
despretensioso, sempre a cantar.
Ou ser como a árvore: aos lavradores
dá lenha e fruto, dá sombra e paz;
dá ninho às aves; ao inseto flores...
Mas nada sabe do bem que faz.
Felicidade — sonho sombrio!
Feliz é o simples que sabe ser
como o ar, as rosas, a árvore, o rio:
simples, mas simples sem o saber!
(Guilherme de Almeida)

sábado, 30 de dezembro de 2017

Porque hoje é sábado



Sentia que o relógio chamava para o seu tempo,

Que era o tempo de todos aqueles fantasmas,

O tempo da vida que passou…

Tenho saudades dele.

Por sua tranquila honestidade,

Repetindo sempre, incansável, "tempus fugit".

Ainda comprarei um outro que diga a mesma coisa.

Relógio que não se pareça com este meu, no meu pulso,

Que marca a hora sem dizer nada,

Que não tem histórias para contar.

Meu relógio só me diz uma coisa:

O quanto eu devo correr para não me atrasar…

Mas o relógio não desiste.

Continuará a nos chamar à sabedoria: "tempus fugit…"

Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente,

a beleza única do momento que nunca mais será…

(Rubem Alves)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Coisas d'alma



Quer ouvir Deus?
Entregue-se à beleza da música,  sem pensar em Deus.
Quer sentir o cheiro de Deus?
Respire fundo o cheiro do jasmim,  sem pensar em Deus.
(Rubem Alves)

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Palavras



Eu queria aprender o idioma das árvores.
Saber as canções do vento nas folhas da tarde.
Eu queria apalpar os perfumes do sol.

(Manoel de Barros)

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Pensamentos daqui e dali



Buscamos, no outro, não a sabedoria do conselho, mas o silêncio da escuta; não a solidez do músculo, mas o colo que acolhe. 
Só podemos amar as pessoas que se parecem com o céu, onde podemos fazer voar nossas fantasias como se fossem pipas.
(Rubem Alves)                                                     

sábado, 28 de outubro de 2017

Porque hoje é sábado



Ter uma casa limpa, aconchegante e bela,
um florido jardim com canteiros fragrantes,
frutas frescas, bom vinho, e as crianças distantes.
para gozar em paz a fiel presença dela.
Sem dívidas, questões e sem qualquer querela,
herança a repartir, parentes litigantes,
contentar-se com pouco, evitar intrigantes
e viver com justiça uma vida singela.
Com franqueza jovial, sonhar, sem ambições,
cultivar com prazer as caras devoções,
dominando o desejo e as tentações da sorte,
a alma livre mantendo, o raciocínio, forte,
e em paz, a conversar com Deus, em orações,
aguardar sem temer a presença da morte.
(Soneto traduzido -  JG de Araujo Jorge)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Palavras





Gostava de estar no campo para poder gostar de estar na cidade.
(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Pensamentos daqui e dali



Felicidade é sair da inércia
Felicidade é ter um teto
Felicidade é encontrar o chão
Felicidade é uma gentileza
Um abraço bem dado
É sorrir à toa
É uma promessa cumprida
Um encontro promissor
Escrever uma carta e receber resposta
Felicidade é um precinho camarada
Um vestido confortável
Um dia de liberdade
Descansar numa rede
Cantar uma canção inteira sem desafinar
Felicidade é matar a sede,
e a fome também
É uma noite bem dormida
Felicidade é pensar bonito
(Ita Portugal)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Palavras




O que mata um jardim não é o abandono. 
O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente.
(Mario Quintana)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Contando um conto



Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. 
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. 
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. 
Como eles admiravam estarem juntos! 
Até que tudo se transformou em não. 
Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. 
Então a grande dança dos erros. 
O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. 
Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. 
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. 
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
(Clarice Lispector)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Coisas d'alma



E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.
(Miguel Sousa Tavares)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Entre aspas



A imagem das coisas tem muito a ver com a pessoa que somos, com o olhar que temos, com a sensibilidade que transportamos dentro de nós.
(José Saramago)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Palavras







O que muda a gente
não é o que a gente fala
é o que a gente cala.

(Mario Quintana)

sábado, 5 de agosto de 2017

Porque hoje é sábado

Não existo.
Começo a conhecer-me.
Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

(Álvaro de Campos)

sábado, 29 de julho de 2017

Porque hoje é sábado



Moro entre o dia e o sonho.
Onde cochilam crianças, quentes da correria.
Onde velhos para a noite sentam
e lareiras iluminam e aquecem o lugar.
Moro entre o dia e o sonho.
Onde tocam claros sinos vesperais
e meninas, perdidas da confusão,
descansam à boca do poço.
E uma tília é minha árvore querida;
e todos os verões que nela se calam
movem outra vez os mil galhos,
e acordam de novo entre o dia e o sonho.
(Rainer Maria Rilke)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Coisas d'alma



Quando falo dessas
pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela,
uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem
diante das minhas janelas,
e outros, finalmente,
que é preciso aprender a olhar,
para poder vê-las assim.

(Cecília Meireles)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Coisas d'alma



Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças, nem barômetros. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.
(Manoel de Barros)