sábado, 31 de outubro de 2015

Porque hoje é sábado



Certa manhã
ia eu pelo caminho pedregoso,
quando, de espada desembainhada,
chegou o Rei no seu carro.
Gritei:
— Vendo-me!
O Rei tomou-me pela mão e disse:
— Sou poderoso, posso comprar-te.
Mas de nada lhe serviu o seu poder
e voltou sem mim no seu carro.

As casas estavam fechadas
ao sol do meio dia,
e eu vagueava pelo beco tortuoso
quando um velho
com um saco de oiro às costas
me saiu ao encontro.
Hesitou um momento, e disse:
— Posso comprar-te.
Uma a uma contou as suas moedas.
Mas eu voltei-lhe as costas
e fui-me embora.

Anoitecia e a sebe do jardim
estava toda florida.
Uma gentil rapariga
apareceu diante de mim, e disse:
— Compro-te com o meu sorriso.
Mas o sorriso empalideceu
e apagou-se nas suas lágrimas.
E regressou outra vez à sombra,
sozinha.

O sol faiscava na areia
e as ondas do mar
quebravam-se caprichosamente.
Um menino estava sentado na praia
brincando com as conchas.
Levantou a cabeça
e, como se me conhecesse, disse:
— Posso comprar-te com nada.
Desde que fiz este negócio a brincar,
sou livre.

(Rabindranath Tagore)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Sinais



Somente o coração sabe o que é melhor para você; somente ele. 
Se você não pode ouvir o seu coração e está em dúvida, é melhor ficar quieto no seu canto até que possa ampliar a sua vibração a ponto de perceber a existência conversando com você. A existência fala através da sincronicidade, as coincidências misteriosas que estão sempre mostrando o próximo passo a ser tomado na nossa jornada evolutiva. 
Esteja atento aos sinais porque Deus fala dentro, mas também fala fora. Deus fala através da sua intuição, mas também conversa com você através da sincronicidade.

(Sri Prem Baba)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Contando um conto



Havia um rei que, apesar de ser muito rico, tinha a fama de ser um grande doador, desapegado de sua riqueza. De uma forma bastante estranha, quanto mais ele doava ao seu povo, mais os cofres do seu fabuloso palácio se enchiam.
Um dia, um sábio que estava passando por muitas dificuldades, procurou o rei.
Ele queria descobrir qual era o segredo daquele monarca.
Como sábio, ele pensava e não conseguia entender como é que o rei, que não estudava as sagradas escrituras, nem levava uma vida de penitência e renúncia, ao contrário, vivia rodeado de luxo e riquezas, podia não se contaminar com tantas coisas materiais.
Afinal, como sábio ele havia renunciado a todos os bens da terra, vivia meditando e estudando e, contudo se reconhecia com muitas dificuldades na alma.
Sentia-se em tormenta.
E o rei era virtuoso e amado por todos.
Ao chegar em frente ao rei, perguntou-lhe qual era o segredo de viver daquela forma, e ele lhe respondeu:
Acenda uma lamparina e passe por todas as dependências do palácio e você descobrirá qual é o meu segredo.
Porém, há uma condição:
Se você deixar que a chama da lamparina se apague, cairá morto no mesmo instante.
O sábio pegou uma lamparina, acendeu e começou a visitar todas as salas do palácio.
Duas horas depois voltou à presença do rei, que lhe perguntou:
Você conseguiu ver todas as minhas riquezas?
O sábio, que ainda estava tremendo da experiência porque temia perder a vida, se a chama apagasse, respondeu:
Majestade, eu não vi absolutamente nada. Estava tão preocupado em manter acesa a chama da lamparina que só fui passando pelas salas, e não notei nada.
Com o olhar cheio de misericórdia, o rei contou o seu segredo:
Pois é assim que eu vivo.
Tenho toda minha atenção voltada para manter acesa a chama da minha alma e, embora tenha tantas riquezas, elas não me afetam.
Tenho a consciência de que sou eu que preciso iluminar meu mundo com minha presença e não o contrário.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O poder da doçura



O viajante caminhava pela estrada, quando observou o pequeno rio que começava tímido por entre as pedras. Foi seguindo-o por muito tempo. Aos poucos, ele foi tomando volume e se tornando um rio maior. O viajante continuou a segui-lo.
Bem mais adiante, o que era um pequeno rio se dividiu em dezenas de cachoeiras, num espetáculo de águas cantantes.
A música das águas atraiu mais o viajante, que se aproximou e foi descendo pelas pedras, ao lado de uma das cachoeiras. Descobriu, finalmente, uma gruta. 
A natureza criara, com paciência caprichosa, formas na gruta. Ele a foi adentrando, admirando sempre mais as pedras gastas pelo tempo.
De repente, descobriu uma placa. Alguém estivera ali antes dele. Com a lanterna, iluminou os versos que nela estavam escritos.
Eram versos do grande escritor Tagore, prêmio Nobel de literatura de 1913:
"Não foi o martelo que deixou perfeitas estas pedras, mas a água, com sua doçura, sua dança, e sua canção.
Onde a dureza só faz destruir, a suavidade consegue esculpir."

(Paulo Coelho)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Coisas limpas e bonitas



Meus queridos: imaginem um mundo de coisas limpas e bonitas, onde a gente não seja obrigado a fugir, fingir ou mentir, onde a gente não tenha medo nem se sinta confuso (não haverá a palavra nem a coisa confusão, porque tudo será nítido e claro), onde as pessoas não se machuquem umas às outras, onde o que a gente é apareça nos olhos, na expressão do rosto, em todos os movimentos — acrescentem a esse mundo os detalhes que vocês quiserem (eu me satisfaço com um rio, macieiras carregadas, alguns plátanos e uma colina — ou coxilha, como se diz aqui no Sul — no horizonte), depois convidem pessoas azuis para se darem as mãos e fazerem uma grande concentração para concretizar esse mundo — e, então, quando ele estiver pronto, novo e reluzente como se tivesse sido envernizado, então nós nos encontraremos lá e eu não precisarei explicar nada, nem contar nenhuma estória escura, porque estórias claras estarão acontecendo à nossa volta e nós estaremos sendo aquilo que somos, sem nenhuma dureza, e o que fomos ficou dependurado em algum armário embutido, junto com sapatos (quem precisará deles para pisar na grama limpa dessa terra?)…

(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Luz da semana



Recuse-se a cair.
Se não puder se recusar a cair, recuse-se a ficar no chão.
Se não puder se recusar a ficar no chão, eleve o coração aos céus e, como um mendigo faminto, peça que o encham, e ele será cheio.
Podem empurrá-lo para baixo.
Podem impedi-lo de se levantar.
Mas ninguém pode impedi-lo de elevar seu coração aos céus - só você.
É no meio da aflição que tantas coisas ficam claras.
Quem diz que nada de bom resultou disso ainda não está escutando.

(Clarissa Pinkola Estés)

sábado, 24 de outubro de 2015

Porque hoje é sábado



Sai do círculo do tempo
e entra no círculo do amor.
Entra na rua das tavernas
e senta entre os beberrões.

Se queres a visão secreta,
fecha teus olhos.
Se desejas um abraço,
abre teu peito.

Se anseias por uma face com vida,
rompe esse rosto de pedra.
Por que hás de pagar o dote da vida
a essa velha bruxa, a terra?

Mil gerações já gozaram
do que agora tens.
Prova a doçura em tua boca
que antes foi flor, abelha e mel.

Vamos, aceita essa pechincha:
dá uma única vida
e leva uma centena.
(Rumi)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Coisas d'alma



 […] Pensei numa festa – sem bebida, sem comida, festa só de olhar.
Para essa festa eu convidaria todos os amigos e amigas que tive e não tenho mais. Só eles, sem nem sequer os entre-amigos mútuos. Pessoas que vivi, pessoas que me viveram. […]
(Clarice Lispector)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Contando um conto



Um homem estava meditando em uma caverna. de repente, um rato entrou e deu uma mordida em sua sandália. 
Aborrecido, ele falou:
_ Por que você está perturbando a minha meditação?
_ Estou com fome. - guinchou o rato.
_ Vai embora, rato louco. - pregou o homem. – Estou procurando a união com Deus. Como se atreve a me perturbar?
_ Como espera tornar-se um com Deus - perguntou o rato - se nem mesmo consegue tornar-se um comigo?

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Comprometer-se



O grande poder do ser humano está na sua capacidade de tomar decisões.
Cada decisão que tomamos nos permite modificar o futuro e o passado.
Escolher, porém, significa comprometer-se.
Quando alguém faz uma escolha, deve lembrar-se que o caminho a ser percorrido será muito diferente do caminho imaginado.
Escolher significa: "bem, eu sei onde quero chegar".
A partir daí, é preciso estar atento ao mundo, porque uma decisão deflagra uma série de eventos inesperados.
Comprometa-se com a sua decisão seja ela no campo, afetivo, profissional ou espiritual.
Tudo o que sua decisão precisa é  sua vontade de seguir adiante.
De resto, ela mesma lhe tomará pelas mãos e lhe mostrará o melhor caminho.
(Carlos Castañeda)


terça-feira, 20 de outubro de 2015

O outro e eu



Tentar colocar-se no lugar do outro.
Mas... onde fica esse lugar? Em meio a relações despersonalizadas e, por vezes, mecânicas, a empatia vem no contrafluxo, convidando-nos a olhar sob o ponto de vista do outro. Tarefa desafiadora essa de atravessar o penhasco que separa quem eu sou de quem o outro é. Para conquistá-la, precisamos nos deslocar do próprio centro de referências, sair do conforto das certezas. 
Esse difícil deslocamento abre as portas para a humildade, pois visualizar a distância que existe entre duas individualidades leva à percepção de que estamos longe de julgar o outro de forma assertiva.
(Sibélia Zanon)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Luz da semana



Procure olhar os pássaros e as formigas e entenda como a atitude de sermos um observador nos dá perspectiva. A formiga está sempre ocupada. Ocupada em achar e coletar alimento. Ela só enxerga o que está bem na sua frente. 
Da mesma forma, quando perdemos a perspectiva, ficamos presos nos detalhes e não conseguimos imaginar a realidade dos outros. 
O pássaro, por outro lado, deixa a terra e voa alto. Lá de cima ele distingue o que há no chão e nos galhos. Ao ver todo o quadro, ele tem a perspectiva da área e pode decidir para onde ir, o que fazer.

(Anthony Strano)