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sábado, 15 de setembro de 2018
Porque hoje é sábado
Caminho todas as tardes por estes quarteirões
desertos, é certo.
Mas nunca tenho certeza
Se estou percorrendo o quarteirão deserto
Ou algum deserto em mim.
(Manoel de Barros)
sábado, 1 de setembro de 2018
Porque hoje é sábado
Teu bom pensamento longínquo me
emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.
Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.
(Cecília Meireles)
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.
Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.
(Cecília Meireles)
sábado, 28 de julho de 2018
Porque hoje é sábado
Falai de Deus com a clareza
da verdade e da certeza:
com um poder
de corpo e alma que não possa
ninguém, à passagem vossa,
não o entender.
Falai de Deus brandamente,
que o mundo se pôs dolente,
tão sem leis.
Falai de Deus com doçura,
que é difícil ser criatura:
bem o sabeis.
Falai de Deus de tal modo
que por Ele o mundo todo
tenha amor
à vida e à morte, e, de vê-Lo,
O escolha como modelo
superior.
Com voz, pensamentos e atos
representai tão exatos
os reinos seus
que todos vão livremente
para esse encontro excelente.
Falai de Deus.
(Cecília Meireles)
sábado, 14 de abril de 2018
Porque hoje é sábado
Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas,
não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.
(Alberto Caeiro)
sábado, 31 de março de 2018
Porque hoje é sábado
Me desculpe o acaso por chamá-lo
necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda
assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por
tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem
fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de
mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir
o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por
trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por
espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das
profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpe a gente nas estações pelo
sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às
vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes
levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na
mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo
ponto,
me absolva, mesmo se você for um
pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas
quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas
pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os
fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la
raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em
toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser
cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me
justifica
já que barro o caminho para mim
mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar
emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las
parecer leves.
(Wislawa Szymborska)
sábado, 24 de março de 2018
Porque hoje é sábado
Eu pareço ter amado você em inúmeras
formas, inúmeras vezes,
em vida após vida, idade após idade,
sempre.
Meu coração enfeitiçado fez e refez o
colar de canções
que você aceita como presente, usa à
volta do pescoço em suas muitas formas,
em vida após vida, idade após idade,
sempre.
Quando eu escuto crônicas antigas de
amor, é sofrimento amadurecido,
é o conto ancestral de se estar junto
ou separado.
Assim que eu encaro mais e mais fundo
o passado,
no final você emerge
envolto na luz de uma estrela-cadente
cortando a escuridão do tempo:
Você se torna uma imagem do que é
lembrado para sempre.
Eu e você temos flutuado aqui no
córrego que flui da fonte,
no coração do tempo do amor de um
pelo outro.
Nós temos brincado ao lado de milhões
de amantes,
partilhado a mesma doce timidez do
encontro,
as mesmas dolorosas lágrimas de
despedida –
Amor antigo, mas em formas que se
renovam e renovam, sempre.
Hoje ele está guardado à seus pés,
ele achou o seu fim em você;
o amor de todos os dias dos homens,
tanto passados quanto eternos:
Alegria universal, tristeza
universal, vida universal,
As memórias de todos os amores
mesclando-se com esse nosso amor
único –
E as canções de cada poeta, tanto
passados quanto eternos.
("Amor sem Fim", Rabindranath
Tagore)
sábado, 17 de março de 2018
Porque hoje é sábado
Na realidade, tua alma e a minha são
a mesma.
Aparecemos e desaparecemos um com o
outro.
Este é o verdadeiro significado das
nossas relações.
Entre nós, já não há nem tu, nem eu.
(Rumi)
sábado, 10 de março de 2018
Porque hoje é sábado
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
(Paulo Leminski)
domingo, 4 de março de 2018
sábado, 3 de março de 2018
Porque hoje é sábado
A vida passa,
leve
como a fumaça,
sem que possa
ao menos compreendê-la.
É um perfume sutil de magnólia,
cintilância indecisa de uma estrela,
um zumbido de vespa que esvoaça
em torno de uma flor
ou junto a um fruto.
É como um nome escrito sobre a areia
para viver o espaço de um minuto.
Aceitemo-la com indiferença,
como se olha a fumaça que se evola
ou se aspira o perfume de uma flor;
tal se escreve na areia um nome amado
porque se sente o amor.
Vivamo-la, pois, serenamente,
trazendo sempre a alma contente
e alegre o coração,
na certeza de que ela é transitória
e que sua glória
é como a glória
de uma bolha de sabão.
Não vale sentir tanta amargura
tanta tristeza
leve
como a fumaça,
sem que possa
ao menos compreendê-la.
É um perfume sutil de magnólia,
cintilância indecisa de uma estrela,
um zumbido de vespa que esvoaça
em torno de uma flor
ou junto a um fruto.
É como um nome escrito sobre a areia
para viver o espaço de um minuto.
Aceitemo-la com indiferença,
como se olha a fumaça que se evola
ou se aspira o perfume de uma flor;
tal se escreve na areia um nome amado
porque se sente o amor.
Vivamo-la, pois, serenamente,
trazendo sempre a alma contente
e alegre o coração,
na certeza de que ela é transitória
e que sua glória
é como a glória
de uma bolha de sabão.
Não vale sentir tanta amargura
tanta tristeza
e quanta desventura
a vida possa nos causar.
O que vale na vida indiferente
é o pouco que o acaso nos concede
nesse inclemente
desfiar das horas,
nessa fuga do tempo
que nos mata
lentamente...
imperceptivelmente...
imperceptivelmente...
(Alfredo de Sant'Anna)
a vida possa nos causar.
O que vale na vida indiferente
é o pouco que o acaso nos concede
nesse inclemente
desfiar das horas,
nessa fuga do tempo
que nos mata
lentamente...
imperceptivelmente...
imperceptivelmente...
(Alfredo de Sant'Anna)
sábado, 24 de fevereiro de 2018
Porque hoje é sábado
Até morrer estarei enamorada
de coisas impossíveis:
tudo que invento, apenas,
e dura menos que eu,
que chega e passa.
Não chorarei minha triste brevidade:
unicamente alheia,
a esperança plantada em tristes
dunas,
em vento, em nuvem, n'água.
A pronta decadência,
a fuga súbita
de cada coisa amada.
O amor sozinho vagava.
Sem mais nada além de mim...
numa eternidade inútil.
(Cecília Meireles)
sábado, 3 de fevereiro de 2018
Porque hoje é sábado
Eu queria trazer-te uns versos muito
lindos.
colhidos no mais íntimo de mim.
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para
as ouvir.
Sim! uma luz que viria de dentro
delas,
como essa que acende inesperadas
cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas, e que
estão escritas
do lado de fora do papel...
Não sei, eu nunca soube o que
dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e
puro, ao vento
da poesia...
como uma pobre lanterna que
incendiou!
(Mario Quintana)
sábado, 27 de janeiro de 2018
Porque hoje é sábado
Dá-me lírios, lírios, e rosas também.
Crisântemos, dálias, violetas e os girassóis acima de todas as flores.
Mas, por
mais rosas e lírios que me dês, eu nunca acharei que a vida é bastante. Faltar-me-á
sempre qualquer coisa. Minha dor é inútil como uma gaiola numa terra onde não
há aves. E minha dor é silenciosa e triste como a parte da praia onde o mar não
chega.
(Álvaro de Campos)
sábado, 20 de janeiro de 2018
Porque hoje é sábado
Simplicidade...
Ser como as
rosas, o céu sem fim,
a árvore, o
rio... Por que não há de
ser toda
gente também assim?
Ser como as
rosas: bocas vermelhas
que não
disseram nunca a ninguém
que têm
perfumes... Mas as abelhas
e os homens
sabem o que o que elas têm!
Ser como o
espaço, que é azul de longe,
de perto é
nada... Mas quem o vê
— árvores,
aves, olhos de monge —
busca-o sem
mesmo saber porque.
Ser como o
rio cheio de graça,
que move o
moinho, dá vida ao lar,
fecunda as
terras... E, rindo, passa,
despretensioso,
sempre a cantar.
Ou ser como
a árvore: aos lavradores
dá lenha e
fruto, dá sombra e paz;
dá ninho às
aves; ao inseto flores...
Mas nada
sabe do bem que faz.
Felicidade
— sonho sombrio!
Feliz é o
simples que sabe ser
como o ar,
as rosas, a árvore, o rio:
simples,
mas simples sem o saber!
(Guilherme
de Almeida)
sábado, 13 de janeiro de 2018
Porque hoje é sábado
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o luar e o sol
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar,
Porque se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
(Alberto Caeiro)
sábado, 6 de janeiro de 2018
Porque hoje é sábado
Não deves entender a vida,
seria então como uma festa.
Deixe que cada dia aconteça,
como uma criança que passa
e a cada dor
com muitas pétalas se presenteia.
Juntá-las e guardá-las
para a criança não tem sentido.
Retira-as suavemente dos cabelos,
onde tão facilmente se prenderam,
retoma os jovens e amados anos
de novo em suas mãos.
(Rainer Maria Rilke)
sábado, 30 de dezembro de 2017
Porque hoje é sábado
Sentia que o relógio chamava para o
seu tempo,
Que era o tempo de todos aqueles
fantasmas,
O tempo da vida que passou…
Tenho saudades dele.
Por sua tranquila honestidade,
Repetindo sempre, incansável,
"tempus fugit".
Ainda comprarei um outro que diga a
mesma coisa.
Relógio que não se pareça com este
meu, no meu pulso,
Que marca a hora sem dizer nada,
Que não tem histórias para contar.
Meu relógio só me diz uma coisa:
O quanto eu devo correr para não me
atrasar…
Mas o relógio não desiste.
Continuará a nos chamar à sabedoria:
"tempus fugit…"
Quem sabe que o tempo está fugindo
descobre, subitamente,
a beleza única do momento que nunca
mais será…
(Rubem Alves)
sábado, 16 de dezembro de 2017
Porque hoje é sábado
Quando um peixe nada no oceano,
não há limites para a água,
não importa quão longe ele nade.
Quando um pássaro voa no céu,
não há limites para o ar,
não importa quão longe ele voe.
Contudo, nem peixe ou pássaro
jamais deixou seus elementos
desde o início.
Quando a necessidade é grande,
é suprida largamente.
Quando a necessidade é pequena,
é suprida de modo menor.
Dessa forma,
nenhuma criatura jamais torna-se limitada
de sua própria plenitude.
Onde quer que fique,
não falha em cobrir o terreno.
Se um pássaro abandona o ar,
morrerá imediatamente.
Se um peixe abandona a água,
morrerá imediatamente.
Saiba, então,
que água é vida.
Saiba que ar é vida.
Vida é o pássaro e vida é o peixe.
(Eihei Dogen Zenji)
sábado, 9 de dezembro de 2017
Porque hoje é sábado
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
(Antonio Cicero)
sábado, 2 de dezembro de 2017
Porque hoje é sábado
Aí...
Acordo hoje.
E você não é mais você!
Uau!
E agora?
Será que você era você
Ou você não é mais agora?
Você que construí
Você que eu quis
Você que eu amei
Você que eu tanto desejei
Cadê?
Existiu?
Você mudou?
Ou eu mudei?
Me apeguei, enraizei, abracei, me adonei, me apropriei, privatizei você!
Uuuiiiiiii que dor!
Logo eu que clamo pela liberdade
Eu...
Que
Não me quero propriedade de ninguém!
Uau!
Um vagão nos trilhos, repleto de passageiros, ou vazio, ou semi cheio, ligado ao trem pode ir a qualquer lugar, de seus trilhos, de seu traçado, de seu largo caminho, de duas linhas paralelas.
E voltar.
Nos mesmos trilhos.
E ainda assim seguir em frente, mesmo que o sentido seja para atrás,
Seja voltar.
Pois então, se você existiu ou não, não sei.
Se existe ou não, também não sei.
Que dói a dor de não mais lhe encontrar, dói.
Que o tempo cure
Que a água limpe
Que o fogo libere
Que a mãe terra sustente
Que o pai céu proteja.
Há muitos caminhos.
Há muito mais que a locomotiva.
A vida é possível para além.
Podemos ser sempre a cor,
O colorido
Na brancura do vagão
Na mesmice
Na monotonia da vida.
(Araci Labiak)
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