terça-feira, 24 de abril de 2012

Cartas de amor para mim mesmo


V. Como reconhecemos a presença do ego dentro de nós

Agora podemos saber quais são os sintomas da presença do ego dentro de nós e reconhecê-los. É como uma doença e os sentimos no nosso pensamento, no nosso coração e nas nossas ações.
Sentimos o sabor que nos fica quando ele usa a nossa presença física para se manifestar.
A presença do ego na nossa vida manifesta-se com tanta subtileza que até parece que somos nós mesmos que pensamos, sentimos e agimos.
Parece que essa é a nossa verdadeira realidade, mas não o é. E saber que não o é já é um grande passo de descoberta.
Saber que temos essa entidade a apoderar-se de nós já é uma grande descoberta.
A presença dessa entidade em nós é sentida como a manifestação de tudo o que nos cause sofrimento, porque o sofrimento não existe na realidade de Deus.
O sofrimento apenas existe para o ego, porque é o seu alimento e o ambiente onde ele vive e subsiste.Quando sentimos sofrimento ou algo nos faz sofrer, sabemos que aí existe a presença do ego.
Esse sofrimento manifesta-se tanto nos nossos pensamentos, emoções e ações e a presença dessa entidade é perfeitamente definível e sentida quando estamos em alerta e somos uma testemunha silenciosa e uma presença no nosso reino interior.
No entanto, apercebemo-nos que no início esse ego e o sabor que ele causava confundia-se com aquilo que sentimos que somos nós mesmos, porque o criamos e tornamos uma entidade nossa, uma parte de nós mesmos e muitas vezes, não só uma parte de nós mesmos, mas nós mesmos, a nossa verdadeira realidade e quem nós realmente somos.
E desprendermo-nos de nós mesmos e de quem nós realmente somos e começar a pensar que tudo o que vivemos foi uma farsa e uma ilusão não é fácil, pois põe em causa muita coisa que sempre julgamos por verdadeira e estabelecida.
As artimanhas do ego para nos manter na ilusão sempre foram e continuam a ser muitas e ele quer que nós entremos em conflito com ele e lhe digamos coisas, e refutemos as suas opiniões, e dialoguemos com ele na nossa cabeça, e que julguemos as coisas como bom e mau, positivo e negativo, de modo a ele ter alimento.
Ele vive do conflito e das guerras internas.
E só quando há conflito e resistência e que ele se manifesta verdadeiramente e se alimenta.
Os conflitos e a resistência são os seus alimentos. O medo é o seu alimento.
A carência é o seu alimento, porque só o ego se sente incompleto e necessitado.
Na verdade os eus que sentimos em nós não são um, mas sim muitos, mas eles querem sempre parecer que são um, pois aí atingem a ilusão da individualidade e de que somos constantes e imutáveis e a crença que somos unos, no pensamento egóico, possibilita um grande disfarce para a ilusão.
O ego, com este artifício, quer iludir a nossa verdadeira realidade e parecer-se com aquilo que nós verdadeiramente somos, Unos, e inseparáveis, indestrutíveis e invulneráveis.
O ego disfarça-se desta forma do Um, confundindo o nosso interior e aumentando o poder da ilusão.
Por ele parecer tão parecido com a unidade, como podemos desconfiar dele?
Como podemos desconfiar de nós mesmos, se somos tão unos?
Isso é uma ilusão do ego para nos confundir e não cheguemos sequer a duvidar de que ele é uma ilusão.
Mas há que separar as coisas e separá-las dia a dia no início e, depois, momento a momento e, de seguida, de instante em instante.
Não podemos dizer que é fácil quebrar com tantos padrões de sentimentos, de emoções e de ações, mas se perguntarmos se é possível, a resposta será, sim, claro que é possível.
O sabor que o ego deixa em nós, o sofrimento que ele provoca é inconfundível quando estamos num estado de presença e vivência do momento presente, só neste estado podemos reconhecer o sabor do ego.
Ele manifesta-se no nosso pensamento, coração e ação, em ira e violência, sofrimento, raiva, tristeza, depressão, confusão, desequilíbrio, falta de vontade, crença na separação, crença na vulnerabilidade, falta de auto-estima, medos, auto-vitimização, amor condicional, apegos, etc.…
Nós podemos conseguir ver de que forma ele se manifesta, e muitas vezes ainda podemos julgar sermos nós mesmos que estamos ali a viver aqueles acontecimentos.
Mas a nossa realidade verdadeira é muito diferente desta realidade. A nossa realidade verdadeira não nos trás sofrimento, não nos provoca qualquer tipo de dor.
Alguém escrevia num livro que a dor existe, mas o sofrimento é opcional.
A dor pode ser algo físico, inerente ao nosso próprio corpo físico como matéria e quando nos magoamos então dói, é uma reação física do nosso corpo, e é inerente ao próprio corpo e ao instinto que o preserva e luta por manter intacto, é um mecanismo da criação para proteção do nosso veículo físico.
O nosso sofrimento com essa dor é que já não é algo instintivo e pode ter origem em vários aspectos relacionados sempre com o nosso ego, inclusive a dor física, mas onde isso é mais visível é na dor emocional.
É facilmente reconhecida por nós a dor emocional e é mais fácil nos identificar com ela, porque é tão sutil, tão disfarçada, e com tantas ramificações, que é difícil por vezes reconhecer que esse pensamento não somos nós.
Nesse instante de reconhecimento há que aumentar o poder da nossa Presença e da força do Ser, que está em nós e por nós vive e nada do que nós pensamos pode ser dor.
Mas quando nada resolve e tudo parece difícil então podemos aplicar o poder da rendição e da aceitação e simplesmente aceitar a dor e rendermo-nos a ela, e aí ela desintegra-se por completo, porque quebramos a oposição e o conflito e conseguimos chegar a ver a verdadeira luz, pela aceitação inclusive da própria dor, e de que estávamos a sofrer.
A resistência, quando não nos permitimos estar em observação, é o pior que podemos fazer, porque a resistência aumenta o poder do ego, porque é o seu alimento.
Quando resistimos, a dor não só não desaparece, como tende a aumentar, tornar-se mais forte e mais poderosa, porque estamos a dar ao ego o seu alimento, que são a resistência e o conflito.
A dor vem porque nós não aceitamos aquilo que é, mas queremos que o que é fosse como nós desejaríamos que fosse, e não aquilo que é.
É uma expectativa do nosso ego, que não quer que as coisas sejam, mas sim que sejam como ele queria que fossem.
E quando essas coisas não são o que o ego esperaria que fossem, aí vem o sofrimento.
O sofrimento é uma reação à quebra de expectativas em relação à forma que o nosso ego queria que as coisas fossem.
O sofrimento é uma não-aceitação do que é como é.
(Um Tratado Completo de Liberdade – Joma Sipe)


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